Corpo em transe

Corpo em Transe

Este ensaio surge a partir de escombros: de corpos marcados pela necessidade de subverter passos, pousos e panos, inscrevendo-se como seres em movimento.

O gênero, para Butler, é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser. E é deste entendimento de uma aparência substantiva do gênero e da problematização deste território de encenação marcada pela tantas vezes opressora forma rígida de representação do ser homem ou do ser mulher, que parimos neste ensaio vazamentos de seres re-des-cobertos.

Neste lugar de Terra em Transe, onde pessoas se reconhecem e se ressignificam, o tecido não é utilizado para maquiar identidades, mas para moldar percursos. Como viajantes entre escombros e estradas, passado e futuro são pontes onde se afirma um lócus de presente insubstancial. Afinal, o gênero é uma performance. E o que se busca, então, é que este percurso seja aberto, subvertendo bipolaridades; e marcadamente potente, instaurando liberdades.

Ficha Técnica:Fotografia e direção de arte: Fabiana LeitePerformers: Clara Mascena, Daniela Lisboa, Gisberta Kali, Lívia Liu, Thaís PimentaAssistência: George Neri e Eduardo Lima

Corpo: Autonomia do corpo feminino, não a padronização imposta pela mídia, empoderamento… foram e são temas frequentes de debates /formações que já participei. Pontos que acho importantíssimos e sempre defendi. Mas vamos a práxis? Eis que surgiu a proposta de mostrar “mexxmo” essa resistência ao “corpo ilusão” que tanto é midiatizado: O convite pra participar de um ensaio nu. Não vou negar que foi difícil decidir se ia participar ou não. Ainda é complicado, mesmo pra mim, bater de frente com padrões tão fortemente consolidados. Mas algumas coisas, conversas foram me encorajando e mostrando como seria importante isso pra mim, como isso é importante pra luta. E o resultado foi trabalho lindo da maravilhosa @Fabiana Leite, intitulado “Corpo em Transe”, e uma das melhores experiências da minha vida. – Thaís Pimenta

Encontro de mulheres descolonizadoras e um espaço em ruínas. Corpoalmas em transe, em trânsito. Desproporcionais. Uma memória gritante desenhada nos restos de parede que não nos protegia de nada, nem delimitava. Parecia que a terra nos abrigava e compunha com o corpo coletivo uma paisagem agreste e delicada, feita de perfumes de suor, cabelos em desordem, sinuosidades da carne que, mesmo estando desnuda, fugia daquele erotismo servil ao prazer masculinista. Éramos descolonizadoras do corpo e nos gozávamos! Não se tratava, porém, de percorrer a ideia de um paraíso. Terrenas, dialogávamos com uma cidade que aprendeu a inchar sem fronteiras, mas, claro, estrategicamente, deixando no cimento das casas sem identidade à nossa volta um projeto de exílio. Sim, aquele era o espaço dos mal nascidos, dos abortados, dos indesejáveis. Insatisfeitas sempre com a imposição de realidade que nos doía os pés, fazíamos arte ou não-arte. Experimentávamos apenas deslocamentos existenciais de modo estético-político, nos posicionando contra o vento, nos pendurando nas cercas, encarando os abismos, vagando na incerteza de nossos delírios férteis. – Gisberta Kali