Branco sem fim

Ensaio selecionado e exposto na Virada Cultural 2018 em formato de lambe lambe pelas ruas da cidade

Este ensaio é inspirado na obra da escritora Maura Lopes Cançado. Maura foi uma escritora mineira que viveu os horrores das internações psiquiátricas e a partir das suas escritas podemos testemunhar os sofrimentos vivenciados não somente por ela, mas impressos em todo tipo de aprisionamento. Uma narrativa que tece, numa poética da dor, o tratamento dado às mulheres tidas por loucas.

A loucura nas mulheres está historicamente relacionada à quebra ou resistência ao papel “naturalmente” atribuído a ela na “divisão” dos sexos. O “cuidado” dado pela psiquiatria em suas experiências de “cura” ilustra essa relação entre corpo feminino e loucura: introdução de gelo na vagina, extirpação do clitóris ou dos órgãos sexuais, injeção de água gelada no ânus.

A leitura da Maura aos poucos foi se tecendo como possibilidade de representação maior e enfim começa a pulsar a partir da vivência artística com outras mulheres no Espaço Comum Luiz Estrela, ocupação cultural autogestionada que reabriu as portas do casarão, abandonado há 19 anos apesar de ser tombado pelo patrimônio histórico. O espaço, uma estrutura pública, propriedade do Estado, foi inaugurado como Hospital Militar há exatos 100 anos.

O período mais duro dessa memória foram os anos em que o casarão abrigava um hospital psiquiátrico. Nas suas ruínas, nas suas rachaduras, na sua história, somos confrontadas às dores ainda pungentes por uma condição não superada: a opressão sobre os corpos; a institucionalização da dor. Este trabalho busca matizar social e historicamente a opressão do encarceramento das mulheres. Re-tratar para re-signicar a dor e suas formas de representação a partir dos corpos. Corpos uniformizados ou desnudos, vultos de individualidades, gavetas de memórias.

“Branco sem fim” é um ensaio-processo e o resultado virá como camadas que se desdobram no tempo. Aqui posto algumas primeiras imagens. Outras e mais outras e novas colagens e remontagens serão descortinadas aos poucos, pelas mulheres que trouxeram seus corpos às ruínas desta memória ainda pungente.

“Por que não dizer? Dói. Será por isso que venho? – Estou no Hospício, deus. E hospício é este BRANCO SEM FIM, onde nos arrancam o coração a cada instante, trazem-no de volta, e o recebemos: trêmulo, exangue – e sem outro.” (Maura Lopes Cançado)

Concepção e fotografia: Bia Lile
Produção geral: Daniela Pimentel
Apoio: Núcleo Audiovisual e Núcleo Antimanicomial do Espaço Comum Luiz Estrela; Sílvia Vilarejo
Equipe fotográfica: Letícia Souza, Paula Kimo e Flávia Mafra
Participação: Anaís Della Croce, Ana Luiza Zocrato, Michelle Barreto, Nívea Sabino Paula Kimo, Roberta von Randow, Sílvia Vilarejo